Eu sou um equilibrista.

Sempre fui. Está em meu sangue, em minha alma. Tudo começou com minha incontrolável mania de andar sobre o meio-fio aos quatro anos de idade. Algum tempo depois, fui apresentado às pernas de pau, que me permitiam sempre estar pelo menos alguns centímetros superior ao solo firme, ao mundo seguro. Pôr em cheque a capacidade de meu labirinto e desafiar minha própria intuição era minha obsessão. Com o tempo, você aprende que o verdadeiro jogo do equilibrista é contra seu próprio centro de equilíbrio: mantê-lo é fácil, o desafio real é deslocá-lo, tirar de si próprio essa zona de conforto. São a auto-sabotagem e a tortura do nosso próprio senso de firmeza que trazem à minha laia aquele sorriso genuíno, presente apenas em momentos únicos. Sabemos que não existe vitória, é claro: a queda é inevitável. O que nos resta é desafiá-la ao máximo, torcendo nossos corpos e redistribuindo o peso através de barras e pesos, e dizer “dessa vez você não me pegou”.

Alguns velhos sábios insistem que escolher e trilhar o caminho certo são o melhor que um homem pode fazer em sua vida. Qualquer um de nós, equilibristas, não pode fazer outra coisa senão rir de tamanha besteira. Gagás obsoletos, fracotes de pernas e braços trêmulos, que vêem no mundo tanta tremedeira quanto há em suas peles enrugadas, seus ossos quebradiços e seus corações moribundos! O que importa não é o caminho que se trilha, mas como o percurso é feito. Saber aproveitar o melhor que um trecho ruim tem a oferecer pode transformá-lo num atalho ou em um ponto mais emocionante do que toda a extensão do bom caminho. E a ousadia é nossa amiga! A queda, para o bom equilibrista, só torna o percurso ainda mais memorável.

Claro, de tudo isso, o que mais me intriga é a necessidade por uma corda sempre mais bamba, uma pirueta cada vez mais exótica, o peso distribuído mais caoticamente a cada nova passagem. Do meio-fio ao telhado, do telhado ao picadeiro, daí ao prédio, de lá ao precipício. Antes com redes de segurança, depois com as mãos amarradas; agora vendado. A necessidade de uma travessia cada vez mais tortuosa e instável leva a todos nós, os equilibristas, inevitavelmente a um mesmo ponto: esse maldito penhasco. O suor frio escorre da minha nuca enquanto ouço os urubus impacientes circularem dezenas de metros acima de minha cabeça. Posso perceber a sede de sangue das pedras ao fundo do abismo, meu algoz, enquanto minhas pernas tremem quase tanto quanto o queixo de um ancião no pior dia de inverno. Estou aqui, no meio da corda bamba, de olhos cegos e mãos atadas, e só agora tudo fica claro.

Eu sou um equilibrista. E a queda é inevitável.

Luis Felipe Gomes : luisgomes1988@gmail.com

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